segunda-feira, 15 de março de 2021


 Resoluções do Intercambiantes - 2021 sobre Realização do II Encontro Nacional - (25, 26 e 27/03/21)


1. Formato: Online

 2. Datas: 
- 25 e 26/03 (quinta e sexta feira) de 17h as 20h.
- 27/03 (sábado) de 14h30minh as 18h.

3. Comissão organizadora do Encontro Br:
- Raquel / Ana Regina/MG; 
- Alyne/ Alda/ PE;
- Lurdinha/Eroy/ Celi/SP;
- Rosa/AL

4. Eixos:
-Eixo 1: Necropolítica/Viventes de Rua; 
-Eixo 2: Cuidado com Saúde Mental dos Trabalhadores; 
-Eixo 3: tema livre definido por cada estado/núcleo regional.
 
5. Inscrições 
5.1. Inscrições de participantes: 
Todos os participantes do Encontro deverão realizar suas inscrições individuais até  o dia 25/03/2021 no link: https://www.sympla.com.br/ii-encontro-nacional---coletivo-intercambiantes-brasil__1147289.
5.2 Inscrições de trabalhos:  
Os Núcleos Regionais poderão inscrever trabalhos em 1, 2 ou 3 eixos até o dia 19/03/2021.
Apenas um representante de cada Núcleo Regional deverá fazer a inscrição de trabalhos no link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdofqylZkM5xA6M7ZA5lOSMi-gnmC6N6BiQ3GV7fCnj9r-RxQ/viewform?usp=sf_link.
Obs.: Não haverá inscrições para apresentação de trabalhos individuais. Apenas trabalhos coletivos dos Núcleos Regionais serão aceitos para apresentação.

6. Atividades do encontro 
Os trabalhos serão apresentados em formato PowerPoint e terão tempo definido de apresentação conforme a quantidade de inscrições nos eixos.
Nos dias 25 e 26/03, as duas primeiras horas do Encontro serão destinadas à apresentação de trabalhos. A terceira hora será destinada a diálogos livres sobre os temas apresentados.
No dia 27/03, as duas primeiras horas serão destinadas a diálogos livres sobre os temas apresentados pelos Núcleos Regionais. A terceira e última hora do Encontro será reservada para o planejamento de ações dos Intercambiantes Brasil para o ano de 2021.

LEMBRETES
- Cada núcleo do Intercam 2021 deve levar estas decisões para seu estado;
- NOSSA PRÓXIMA REUNIÃO FOI MARCADA PARA O DIA 12/03 (sexta feira) das 14:30h às 15:30h.
Contamos com a participação de todas/os/es! Resistir é preciso!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

CISARTE e Intercambiantes-SP inauguram cozinha-escola voltada a profissinalização dos viventes do rua.

 

Fonte: Acervo das autoras


 

- Você tem fome de que?

 

Os viventes de rua, tem fome de casa, comida, escuta, acolhimento, garantia de direitos e muito mais...


O João Paiva, empresário, tinha fome de realizar um trabalho voluntário...

 

O centro de inclusão pela arte, cultura, trabalho  e educação,- CISARTE através do Darcy  Costa ,coordenador,  e da Luciene Inácio, administradora, na sede do movimento nacional de população de rua (MNPR)  tinham fome de ter uma cozinha  industrial  para auxiliar na profissionalização dos viventes de rua....

 

A Eroy Silva (psicóloga e ativista social) e a Lurdinha Zemel (psicanalista), representantes dos Intercambiantes SP e BR tinham fome de realizarem uma atividade que unisse dois mundos tão separados : a iniciativa privada e os viventes de rua...

 

O João se juntou a muitos outros empresários: um grupo de arquitetos voluntários, a C&C, a Whilpool... e com o empenho e muito trabalho de todos chegamos a uma grande inauguração.

 

O CISARTE é uma espaço cultural que funciona na matriz  do MNPR, localizado no bairro da Bela Vista, São Paulo.,  e tem dois objetivos claros: promover  acesso aos direitos e informação as pessoas em situação de rua e  incentivar o cooperativismo popular  coletivo  por meio da realização de oficinas  e projetos temáticos voltados para cultura, arte, trabalho, assistência social, educação e  saúde, com objetivo de estimular  a multiplicação de  empreendimentos solidários para que as pessoas deixem as ruas.

 

Agora temos a cozinha escola como podemos ver pelas foto exposta,  mas seguimos trabalhando para conseguirmos os utensílios e iniciarmos os cursos profissionalizantes.

 

Um sonho precisa de muitos autores para se tornar uma realidade.

Contamos com você, junto conosco!

Junte sua fome à nossa fome! Inclusão, saúde, educação, trabalho,  autonomia e garantia de direitos.

 

Eroy Silva e Lurdinha Zemel

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O caráter traumático da pandemia pela Covid 19

 

Arte: Pintura de Rosana Della Coletta

Celi Cavallari[1]

 

Na passagem para a terceira década do século XXI fomos surpreendidos pela pandemia do coronavírus, acontecimento que atravessa a história da humanidade e muda a rotina do viver humano no planeta. Em plena revolução tecnológica, a maioria não esperava agora ter o desafio de uma nova epidemia, sem respostas imediatas.

 Iniciamos 2021 com quase 200.000 mortos pela COVID 19 no Brasil, segundo os dados oficiais; e, passado o impacto inicial, estamos entrando em uma nova onda de crescimento do número de pessoas infectadas. As respostas do poder público foram insuficientes e, por vezes, contraproducentes para que fossem tomadas medidas preventivas adequadas; e é alto o grau de sofrimento da população.

Delumeau no livro A História do medo no Ocidente,[1] observa que a peste impõe

a “interrupção das atividades familiares, silêncio da cidade, solidão na doença, anonimato na morte, abolição dos ritos coletivos de alegria e de tristeza: todas essas rupturas brutais com os usos cotidianos eram acompanhadas da impossibilidade radical de conceber projetos de futuro, pertencendo a “iniciativa”, doravante, inteiramente à peste. Ora, em período normal, mesmo os velhos agem em função do futuro, tal como aquele de La Fontaine que não só constrói, mas planta. Viver sem projeto não é humano. No entanto, a epidemia obrigava a considerar cada minuto como um sursis e a não ter outro horizonte diante de si que não o de uma morte próxima.”

A falta de perspectiva, a ameaça à vida, a impossibilidade de saber quanto tempo vai durar, o isolamento social, o descuidado social e a instabilidade nos colocam em um patamar muito semelhante ao referido por Delumeau.

Para Freud, quando a adversidade do destino nos atinge, nos deparamos com sentimentos como angústia, desamparo e culpa, provocados tanto pelo perigo apresentado na realidade, quanto pela ameaça à nossa identidade.

A proporção de riscos, de medo, de luto e de dor associada à pandemia pode alcançar forte intensidade para o psiquismo e ser vivenciada como experiência traumática, exigindo grandes esforços para garantir o equilíbrio psíquico que é diferente para cada pessoa e para cada território.

A pandemia desencadeou rupturas e fomos jogados para uma condição mais regredida. De repente, ninguém pode sair de casa, houve diminuição de renda, situações de emergência, de risco e perdemos parte de nossa autonomia. Para as pessoas mais vulneráveis sem moradia, saneamento, ou que moram em situação de risco, a impossibilidade de cumprir as consignas preconizadas se traduziu no aumento do sentimento de desamparo e a diminuição de renda aumentou o risco à vida.

Negar também não é solução. Os países que fizeram isolamento social rigoroso e priorizaram ações de cuidado conseguiram resultados melhores em menor tempo, enquanto aqueles que não fizeram, apresentam maior número de infectados e de mortes, como é o caso do Brasil.

Quando a prioridade é da ordem da Saúde, seria importante que as forças políticas colaborassem e causassem menos stress. Em nosso país, tem ocorrido o oposto, diariamente recebemos notícias sobre disparidades políticas ou das forças de segurança que entram em choque com as ações de cuidado.

O adoecimento e morte continuam crescendo e os protocolos de tratamento e procedimentos médicos, por vezes, são tratados como se fossem apenas questão política e não dependessem do conhecimento científico. Parte do mundo iniciou a vacinação, enquanto no país as providências são lentas e quando governadores, como no caso de São Paulo, tomam medidas para proteger a região mais populosa do país, há interferência política federal e a esperança fica cada vez mais adiada.

Esses embates são mortíferos, as vivências relatadas por pacientes são semelhantes às situações de guerra, nas quais as pessoas se sentem sem saída, com crises de ansiedade e outros sintomas; o que favorece a piora das condições de saúde mental. Conforme a Organização Mundial de Saúde[2]:

 A pandemia está causando um aumento na demanda por serviços de saúde mental. Luto, isolamento, perda de renda e medo estão criando ou agravando transtornos de saúde mental. Muitas pessoas aumentaram o uso de álcool ou drogas e sofrem de problemas crescentes de insônia e ansiedade. Por outro lado, o mesmo COVID 19 pode trazer complicações neurológicas e mentais, como delírios, agitação ou derrames. Pessoas com transtornos mentais, neurológicos ou de uso de drogas também são mais vulneráveis ​​à infecção por SARS-CoV-2 e podem ter maior risco de doenças graves e até de morte. 

E, nesse momento, no qual há urgência em ampliar o cuidado em saúde mental de portas abertas, o governo federal reduz verbas para a necessária Rede de Atenção Psicossocial, que conta com profissionais especializados, enquanto aumenta verbas para Comunidades Terapêuticas de cunho religioso; além de revelar a intenção de revogar a reforma psiquiátrica e restaurar atendimentos manicomiais.

  Por outro lado, o governo estadual de São Paulo, propõe fechar a enfermaria psiquiátrica do Hospital Geral de Diadema, que é referência nacional de bons cuidados em psiquiatria e em desintoxicação para álcool e [outras] drogas e cumpre com qualidade seu papel na legislação vigente!

 Tudo isso contribui para o agravamento da demanda em saúde mental. Nos momentos disruptivos é fundamental evitar que novas rupturas ocorram, para que seja possível as pessoas recuperarem o equilíbrio emocional e psicossocial.

 

A telemedicina, os atendimentos psicoterápicos e de outras áreas de cuidado revelaram-se forte ponto de apoio e contribuíram para evitar complicações de saúde em geral. Assim como, a comunicação online possibilitou a diminuição da saudade de familiares e de amigos em isolamento social e foi um recurso para a realização de aulas, de grande parte de atividades profissionais e do resgate da arte. Embora insuficiente para atender as demandas da população de baixa renda e que necessite de ampliação, a tecnologia nos ancorou.

Precisamos resistir, elaborar esse processo traumático e sonhar para que possamos resgatar nossa integridade. O futuro depende também dos fragmentos da ruptura; o mundo não é o mesmo, a vida mudou, mas continua!

 

 


[1] Psicóloga, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica/PUC-SP. Conselheira da REDUC - Rede Brasileira de Redução de Danos e DH. Consultora Comissão de DH e Drogas da OAB-SP, membro ABRAMD/ RENFA/Rede Proteção contra o Genocídio e do Coletivo Intercambiantes BR / SP. 

 



[1] DELAMEAU, J. A História do medo no Ocidente. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.125.

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A “nova” Lei de Drogas – A era do Grotesco!

 

Geliy Mikhailovich Korzhev-Chuvelev – fonte da imagem: https://www.megacurioso.com.br/artes/102068-este-mundo-grotesco-foi-imaginado-por-um-sovietico-contrario-ao-capitalismo.htm?img-11=


 

Rubens Espejo da Silva[1]

No dia 11 de abril de 2019 por meio do Decreto N° 9.761, O Presidente da República, Jair Bolsonaro, aprovou a “nova” Política Nacional sobre Drogas, substituindo a estratégia de Redução de Danos pelo Paradigma da Abstinência. O foco da nova política se dá na PROMOÇÃO e na MANUTENÇÃO da ABSTINÊNCIA (A palavra abstinência aparece 7 vezes). O Governo Federal, ao produzir este Decreto trouxe o que há de mais moderno em termos de atraso, a saber: o fortalecimento dos atributos de guerra às drogas em detrimento à descriminalização e legalização. Busca-se nas internações involuntárias em Comunidades Terapêuticas [2]a cura para os “drogados”; no endurecimento ao combate ao tráfico, a solução para os “bandidos”, e assim foi sancionada a PLC N° 37/2013, transformada na “nova” Lei sobre Drogas – Lei 13.840 de 05 de junho de 2019. Este tipo de Política Pública é muito mais do que um “simples” retrocesso, ela é a exclusão da diversidade no cuidado às pessoas que optaram por usar drogas. Ela é o que poderíamos chamar de produção do GROTESCO.  Gosto da definição do Grotesco feita por Michel Foucault em “Os Anormais”:

Chamarei de “grotesco” o fato, para um discurso ou para um indivíduo, de deter por estatuto efeitos de poder de que sua qualidade intrínseca deveria privá-los. O grotesco ou, se quiserem o “ubuesco”[3] não é simplesmente uma categoria de injúrias, não é um epíteto injurioso, e eu não queria empregá-lo neste sentido. Creio que existe uma categoria precisa; em todo caso, dever-se-ia definir uma categoria precisa da análise histórico-política, que seria a categoria do grotesco ou do ubuesco. O terror ubuesco, a soberania grotesca ou, em termos mais austeros, a maximização dos efeitos do poder a partir da desqualificação de quem os produz: isso, creio eu, não é um acidente da história do poder, não é uma falha mecânica. Parece-me que é uma das engrenagens que são parte inerente dos mecanismos de poder (Foucault, 2018, p.11).

            A produção do Grotesco é feita pelo Presidente Ubuesco, ao qual, por meio do seu poder, impõe não propõe, pune não acolhe, escolhe quem merece viver e quem morrer, - MAS E DÁI? - . Enfim, querem privar as pessoas ao direito de uso, bem como a qual estratégia de cuidado aderir, afinal para o Ubu e seus asseclas só existe o paradigma da Abstinência.

Penso sempre no exercício ético no cuidado às pessoas que fazem uso de drogas, até porque sou uma delas - revolto-me com a imposição da abstinência como Política Pública para todos -. Revolto-me com a própria abstinência, nas palavras do historiador Henrique Carneiro (2019):

É preciso lembrar sempre que a abstinência não é uma moderação, mas um excesso. É preciso moderar ambos, tanto o excesso como a própria moderação. Um excesso moderado, de qualquer forma, parece sempre melhor do que a moderação excessiva. É preciso temperar a temperança e moderar a moderação, para não cometer um paradoxo (p. 64).

A abstinência é o excesso do não! Entendo a Redução de Danos não como substitutiva das práticas tradicionais de internamento, mas sim um cuidado complementar, que pode restituir a possibilidade de cuidado de si e de circulação nos territórios. Não creio que devemos buscar a hegemonia de um tipo único de cuidado, mas sim, diversidade, assim como preconizava Antonio Lancetti (2014) – RD como ampliação da vida! - Acreditamos na RD não como uma impossibilidade à abstinência, mas um dos modos de se chegar a ela, caso a pessoa almeje tal triste meta. 

Referências

BRASIL. Lei nº 13.840, de 05 de junho de 2019. Altera as Leis nos 11.343, de 23 de agosto de 2006, 7.560, de 19 de dezembro de 1986, 9.250, de 26 de dezembro de 1995, 9.532, de 10 de dezembro de 1997, 8.981, de 20 de janeiro de 1995, 8.315, de 23 de dezembro de 1991, 8.706, de 14 de setembro de 1993, 8.069, de 13 de julho de 1990, 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e 9.503, de 23 de setembro de 1997, os Decretos-Lei nos 4.048, de 22 de janeiro de 1942, 8.621, de 10 de janeiro de 1946, e 5.452, de 1º de maio de 1943, para dispor sobre o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas e as condições de atenção aos usuários ou dependentes de drogas e para tratar do financiamento das políticas sobre drogas DF: Imprensa Nacional, 06 jun. 2019. Seção 1, p. 2. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13840.htm>. Acesso em: 18 jun. 2019.

 

CARNEIRO, Henrique. Drogas: A História do proibicinismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2019.

 

FOUCAULT, Michel. Os Anormais: Curso dado no Collége de France (1974-1975). 2. ed. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2010

LANCETTI, Antonio. Clínica peripatética. São Paulo: Hucitec, 2014.



[1] Psicólogo clínico,  mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 

[2] As comunidades terapêuticas já foram denunciadas por diversas violações de direitos humanos. Ver dossiê produzido pelo CFP - https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2018/06/Relat%C3%B3rio-da-Inspe%C3%A7%C3%A3o-Nacional-em-Comunidades-Terap%C3%AAuticas.pdf

[3] Segue as notas do livro Os Anormais p. 25 para definição do adjetivo “ubuesco” foi introduzido em 1922, a partir da peça de A. Jarry, Ubu roi, Paris, 1896. Ver Grand Larousse, VII, 1978, p. 6319: “Diz-se do que, por seu carater grotesco, absurdo ou caricato, lembra o personagem Ubu”; Le Grande Robert, IX, 1985, p.573: “Que se assemelha ao personagem Ubu Rei (por um caráter comicamente cruel, cínico e covarde ao extremo).

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

“Reflexões sem dor”, de uma médica de família e comunidade, dolorida.

Lua Sá Dultra [1]


De dentro da sala, escuto as vozes das pessoas já conhecidas que chegam: 

-“Ô, Maria Bonita! Ô, Lampeona! Cheguei!”. Pela entonação e volume, enquanto escuto a pessoa que tá cá dentro, penso na ordem de chamada, e vamos nessa de tentar estratificar vulnerabilidades… Às vezes dá certo, muitas dá errado. Coisa boa foi realizar que ninguém educa ninguém e nem está ali pra isso. 

Entre uma pessoa e outra, a gente tenta agilizar aquelas coisas mais simples: adianta a coleta do escarro de um, corrige uma receita, entrega os medicamentos de outra, dá tchau pra um bebê que nasceu e você só conhecia de dentro da barriga. Volta o cara do escarro com xixi no potinho, pega novo coletor, explico: “não é xixi, é escarro”. Falhamos na comunicação. 

O corredor é o ponto alto. Nunca me furtei de ir ao corredor, gosto de ver o que está acontecendo: casais apaixonados que querem engravidar, casais brigando e gritando, um já almoçando porque conseguiu desenrolar a quentinha, uma outra discutindo com o porteiro porque quer entrar com a cachorra, uma ouvindo um radinho nas alturas, ainda outro ajudando o colega a organizar os medicamentos. Há também muita solidariedade e beleza. Quando minha avó morreu, muitas foram na unidade só me dar um abraço. Quando ‘apertam meu juízo’, digo que vou botar todo mundo dentro da sala e eles riem. Outros seguem xingando, e assim vamos. 

É tenso, na maioria das vezes é tenso. E agora, com tira luva, bota luva, passa álcool gel... ai me contaminei, volta tudo, tá mais tenso ainda. 

A realidade das pessoas que vivem nas ruas atesta sua capacidade extraordinária de resistir às situações mais adversas. Resistem às balas da guerra às drogas, resistem aos alagamentos da cidade, a infecções extensas, subagudas, à fome, à tristeza, às dores múltiplas do racismo. O que é um vírus diante disso tudo? “Eu sou micóbrio!”, assim me dizem. 

Morro um pouco e nasço um pouco, a cada dia, sendo médica de família e comunidade em uma equipe de Consultório na Rua. Que eu siga aberta a ouvir com o mesmo interesse uma história clínica difícil e um senhor cordelista que, no olho do furacão, entra na sala e diz que foi apenas me recitar um cordel. Afinal, “quem faz um poema salva um afogado”1, e assim a gente vai se salvando. 

Parabéns pra nós, neste 19 de maio de 2020, Dia Mundial da Médica e do Médico de Família e Comunidade. 


Referências Bibliográficas: 1 – Quintana, Mário. “Emergência”. In: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 

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[1] Lua Sá Dultra é médica da familia e comunidade em Salvador - BA

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Do incômodo ao encontro: a experiência de Redução de Danos na Feira Noturna.

 


Ana Paula Briguet [1]

Caty C. Fernandes Teodoro[2]

 

A Feira livre noturna acontece no Centro da cidade de Barueri- SP, semanalmente às terças-feiras. É um espaço de alimentação, cheio de som, movimentado e colorido. Estende-se ao evento, os arredores que incluem a praça dos estudantes e o estacionamento do ginásio municipal.  Nessas áreas acontecem atividades de cultura e esporte tais como: a realização da Batalha de Rima da Aldeia, o basquete de três, skate e manobras com bicicletas.

Em maio de 2017 o Ministério Público do Estado de São Paulo através do Promotor de Justiça da Vara da Infância e Juventude, convoca uma reunião ampliada integrantes da Rede intersetorial para discussão da utilização desse espaço público pelos jovens e da preocupação como as cenas de uso de álcool e outras drogas.

Assim, iniciamos com essa demanda que a princípio não nos soou como de cuidado, mas de “resolução” do incômodo causado pelo encontro e convivência de jovens na Batalha de Rima e o uso de drogas. Mas, afinal, não temos que nos incomodar?

A contextualização da feira noturna fará todo sentido para entendermos como nós, trabalhadores da saúde, junto com os jovens, frequentadores e trabalhadores da feira, fomos constituindo ações de Redução de Danos que tinham como objetivo a promoção do autocuidado e compartilhar o máximo de informações possíveis sobre o uso de drogas.

 Assim, criamos um grupo de trabalho, representado pelas equipes do CAPS III Álcool e outras Drogas, CAPS II Infanto Juvenil, Consultório na Rua e profissionais da Unidade Básica referência daquele território e iniciamos com articulação da rede intersetorial, mapeamento e territorialização do espaço da feira.

Encararmos a feira não apenas como um espaço físico, mas como um território, singularizado, produto e produtor de singularidades, isto é onde a subjetivação acontece.

Para realização do mapeamento estiveram presentes os profissionais da equipe do Consultório na Rua, do Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e outras drogas (CAPS-ad/CRAD) e o Centro de Atenção Psicossocial Infantil Infanto Juvenil (CAPSij). Foram realizadas visitas à Feira Noturna e seu entorno durante as três primeiras semanas do mês de julho/2017, no período das 17h00 às 21h00 e após 01 ano realizamos novo mapeamento em julho de 2018.

 O objetivo das ações in loco era a observação do espaço, das pessoas que a frequentam incluindo os jovens e trabalhadores da feira, bem como o percurso por elas realizado, utilizamos como metodologia a observação direta e um roteiro norteador semi-estruturado para melhor compreensão e análise dos dados obtidos. Para composição deste mapeamento, também foram realizadas reuniões semanais do Grupo de Trabalho para discussão das observações, percepções e elaboração de estratégias. Com os dados obtidos, fora composto um diagnóstico situacional e, posteriormente, a construção de ações a fim de realizarmos o cuidado de Promoção e Prevenção à saúde dos adolescentes e jovens.

Sobre o olhar da equipe

A Feira Noturna é um espaço de suma importância para população, valorizada por todas as faixas etárias. Pareceu se configurar para além de um local de aquisição de produtos, mas também como espaço de encontro e socialização e que se tornou um ponto de referência para as pessoas em Barueri e região. Especialmente sobre os adolescentes, notamos que eles se utilizam da feira para se alimentar e depois se dirigem para a Praça dos Estudantes ou local onde ocorre a Batalha de Rima- Batalha da Aldeia.

Os grupos se encontram a partir das 20h00 e notamos o uso de bebida alcoólica, narguile e, em menor quantidade, maconha. Os jovens se organizam em casais, pequenos grupos (de três a cinco pessoas) e pouquíssimos grupos maiores (com mais de cinco pessoas). Há a presença de ciclistas e skatistas percorrendo o espaço da praça, nas ruas e fazendo manobras. Também entramos em contato com o Pronto Socorro Central para identificarmos se havia diferença quanto a população que era atendida na terça-feira, bem como as queixas iniciais. A equipe não identificou diferença no fluxo de atendimento dos munícipes neste dia, tão pouco o aumento do número de jovens para uso das dependências do Pronto Socorro.

Nesse sentido, curiosamente o uso de drogas não apareceu como incômodo para os feirantes, nem para as pessoas que circulavam na feira e tão pouco pela Guarda Municipal. Em nossas “abordagens” ficava evidente o interesse das pessoas pelo local como espaço de múltiplos encontros e lazer no período noturno.

As abordagens citadas em aspas representam a nossa desconstrução nos encontros com os jovens, que associavam a abordagem ao campo repressor e policialesco e não ao encontro e ao cuidado que propomos.  

Decidimos então, que adotaríamos uma estratégia ética de nos aproximar dos jovens e não mais abordá-los.  Em duplas ou em trios, os profissionais foram se aproximando e propondo conversas a respeito da vida, afetos, angústias e autocuidado, relações familiares e sobre o uso de drogas na perspectiva da redução de riscos e danos. Os encontros eram finalizados com o desejo de nos encontrarmos novamente deixando uma porta aberta nos serviços CAPS, UBS ou na própria feira. 

Desconstruímos e construímos muitas ações. Experimentamos oficinas culturais e temáticas, constituição de equipes ampliadas intersetoriais, parcerias com Serviço de Atenção Especializado- SAE nas campanhas de teste rápido, Setembro Amarelo e ações comunitárias com os organizadores Batalha de Rima.

Nesse processo passamos a identificar a necessidade de garantia de uma permanência e o reconhecimento por parte dos frequentadores da nossa presença e do nosso vínculo com o território. Adotamos uma nova estratégia, um espaço físico fixo, uma tenda. Um lugar onde teríamos um espaço acolhedor para quem quisesse estar e nos encontrar ou para quem tivesse interesse em conhecer a nossa equipe e o nosso trabalho. Espalhamos cadeiras de praia e almofadas no chão, mesinha com água, chocolate, balas de hortelã, preservativos, insumos, folders dos serviços e cartazes nas laterais e na frente da tenda com frases que pudessem despertar olhares e aproximações. Além disso, ampliamos os encontros que passaram de mensais para quinzenais.

  Esse é um projeto que nos traz muitas inquietações e desafios, nos questionamos muitas vezes a respeito de nossa atuação na cena de uso dos jovens em espaço aberto de lazer. Não ocupamos o lugar de resolução do incômodo, mas sim, de respeito a cultura do jovem, trazendo, nos diferentes tipos de aproximação, a vida, a garantia dos direitos dos jovens de pertencer, de ter acesso aos serviços de saúde e a ampliação do repertório de atividades de cultura, lazer e arte.

Que possamos estar sempre abertos aos encontros como nos diz Blanchot (2001, p. 63) que encontrar é: “[...] tornear, dar a volta, rodear. Encontrar um canto é tornear o movimento melódico, fazê-lo girar. ” É poder aproximar de suas inúmeras formas de combinações, girar em torno de seus múltiplos movimentos e circular por suas variações e arranjos.



[1] Terapeuta Ocupacional, trabalhadora nos dispositivos: CAPS II, CAPS III, NASF e na Gestão de serviços de Saúde Mental. Membro intercambiante SP. Mestrado em Psicologia Clínica pela PUC/SP(2008), especialista em Saúde Mental pela UNIFESP(2008), especialista em Saúde da Família pela UNIFESP( 2016), especialista em gestão do SUS FIOCRUZ ( 2013).

[2] Caty Cilene Fernandes Teodoro, terapeuta Ocupacional, trabalhadora do SUS desde 2007, atualmente atua na equipe do Consultório na Rua de Barueri. Especialista em
Saúde Mental pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo- USP
Paulo- UNIFESP (2016),especialista em Micropolítica da Gestão (2011), especialista em Saúde da Família pela Universidade Federal de Sãoe Trabalho em Saúde (2018) pela Universidade Federal Fluminense.

Referências

BLANCHOT, maurice. A conversa infinita: A palavra plural.trad.Aurelio Guerra Neto. São Paulo: Escuta 2001.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Mas eu sou a força maior do pensamento...


Nós do Blog Intercambiantes SP prestamos nossa homenagem ao prof. Carlini trazendo a vocês a fala do amigo, professor e sempre mestre – “um pra trás sempre a frente”.

Saudade professor!

 

 Prof. E. A. Carlini

Discurso da Cerimônia de entrega

do título de Professor Emérito, UNIFESP

Obrigado. Quebrando a etiqueta e protocolos, por saudar à Soraya, reitora da UNIFESP. Cara Soraya, com quem trabalhei como companheiros de diretoria da nossa ADUNIFESP, “batalha” em prol de tempos de dignidade e liberdade, entendendo ser da EPM o papel de lutar contra a ditadura.

 E você, diretor da Escola Paulista de Medicina, Antonio Carlos Lopes. Uma pessoa que ama essa nossa Escola como poucas vezes vi na minha vida. E dele me lembro inclusive que uma vez se referiu como “nossa escolinha”, o termo mais gentil, mais amado, que usamos para nossa EPM, por amor. Inclusive até para responder aos comentários que recebíamos no passado de outra Faculdade de Medicina, mais importante, e que nós respondíamos, como “escolinha” de medicina, para a “divina USP”: “somos humanos e queremos fazer com que nossa EPM cada vez caminhe mais e mais para o alto”.

E à Congregação, através da Prof.ª Ligia, também quero me dirigir. Eu sentei nessa Congregação, nesse mesmo anfiteatro, talvez por vinte ou mais anos, e acompanhei debates incríveis a respeito da importância da vida, da aceitação da morte, da importância do país ser livre, debates memoráveis a respeito de “queremos de volta a eleição”.

Entre esses muitos colegas que por aqui passaram, quero lembrar dois pelo dinamismo com que sempre defenderam os interesses da nossa Escola, da nossa Universidade. Eu quero me referir ao José Ribeiro do Valle e ao Rubens Belfort Junior. Esses dois, meus amigos, como todos os demais muito lutaram e não estão presentes por estar um para sempre fora de nosso alcance e outro em viagem para o interior.

Mas eu gostaria de dizer um ditado muito típico do Brasil: “santo de casa não faz milagre”. Eu me considero na realidade uma pessoa que é fruto desta casa  e não por mérito próprio apenas. Mas na realidade, eu trabalhei durante muito tempo no departamento que eu fundei, passei para outro departamento que em três anos aprovou que eu fosse um candidato a Professor Emérito. Mas o título que agora recebo não é apenas meu. Eu queria deixar claro que considero isso em memória de muitos que já se foram e colegas/alunos que muito me entusiasmaram. Os alunos frequentemente pediam minha opinião, pediam aula que eu pudesse dar à noite, etc. Então o mérito não é pessoal, é um mérito coletivo e que agradeço a todos por este aspecto.

Eu queria lembrar rapidamente também a respeito daqueles que marcaram minha existência durante esse tempo todo, estou com 85 para 86 anos de vida. Começo por José Ribeiro do Valle, meu professor de farmacologia e quem me incentivou, quem me encaminhou para a carreira científica. Com a sua “mineirice” e sua imensa sabedoria, eu fui educado com frases de grande teor filosófico, mas também de grande teor nacional, sabedoria interiorana: “Carlini, bezerro manso, mama em qualquer vaca”. Ele me aconselhava que eu nunca deveria partir para a ignorância, partir para argumentação, que eu deveria simplesmente dialogar. Outra frase que sempre fez questão de me dizer, e que pra nós é fundamental: “confie apenas na forte força do seu fraco braço”. Ele dizia isso com muita sabedoria porque sabia que os recursos que nós dispomos e a força que tem a ciência no Brasil são muito pequenos, pra não dizer são praticamente inexistentes; e se nós não confiarmos em nós mesmos, se nosso país não confiar em si próprio, nós nunca sairíamos de um país em desenvolvimento, pois ainda somos país subdesenvolvido mesmo, mudamos apenas o nome, mas continuamos a mesma coisa.

Solange Nappo, há trinta anos que me atura, colega, professora adjunta aqui, esposa com quem passei a discutir de uma maneira muito profunda, não mais só aqui, agora os embates em casa também sobre a problemática do uso de drogas no país, a ela muito eu devo também.

E gostaria de dedicar algumas palavras ao João Pequeno.

João Pequeno foi um aluno meu no curso de alfabetização noturna, que dei na Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, aqui em Campo Belo, para operários da construção civil e empregadas domésticas, analfabetos na fase adulta da vida. Foi talvez a mais importante experiência que eu tive sobre sociologia, sobre sociedade, sobretudo a necessidade de estarmos abertos à mais da metade da população brasileira.

João Pequeno era preto, pequeno, como o próprio nome indica, o maior acanhamento que já vi na minha vida; não falava, não levantava a voz e não conseguia aprender coisa nenhuma. Eu cheguei a ir conversar com o padre da igreja: “padre, acho que é uma desistência que eu faço, eu não gostaria”. Ele disse: “tente um pouco mais, Carlini”. O ensino que nós fazíamos era pelo método Paulo Freire, e a palavra-chave para que todos aprendessem português era a palavra panela, escolhida pelas próprias empregadas domésticas que vinham à noite estudar conosco. Então a palavra panela foi divida em “pa” e nós procurávamos que eles escolhessem, os alunos todos, outras palavras que iniciassem com “pa”. O João Pequeno não passou nessa fase.

Aí nós passamos para a segunda: “pe”. Também foi uma dificuldade, ele suava e todos nós ficamos muito emocionados porque ele não aprendia. Até que um dia ele fez um esforço supremo e saiu “Pelé”. Foi a primeira palavra que ele falou e foi primeira vez que vi um ser humano chorar assim, como eu chorei e todos nós choramos. E a partir deste momento, se alguma vez eu presenciei um milagre na minha vida, esse milagre foi a mudança que João Pequeno passou a ter. Ele passa a partir daí a ser um aluno normal, acompanha a palavra dos outros, tem sua própria palavra, tem seu próprio avanço também. Foi quando eu aprendi então a grande lição: metade da nossa população é constituída em graus menores de Joãos Pequenos, que não são capazes de imaginar a própria potência e força que tem, porque foram induzidos a acreditar que são arraia menor. A começar pelo padre João Antonio Vieira, famoso pregador do passado que ensinava que o negro ou escravo tinha que ser mesmo sofredor porque deles seria o reino dos céus no futuro. Então na realidade, eu achei muito importante a missão que tive e que procuro transmitir atualmente a meus alunos, meus colegas e aos meus seis filhos, cinco filhas e um filho: somos muito da classe social dominante e gostaria que nós entendêssemos que a classe social nossa deveria ser diferente.

Finalmente, para terminar, eu considero que Professor Emérito não é um título de aposentadoria, não. A aposentadoria eu já consegui antes, continuo e quero continuar a trabalhar. E nesse sentido, minhas palavras finais vão pra isto. Eu considero que a exemplo do João Pequeno e outros exemplos, a nossa missão, a minha missão não está ainda terminada. Eu tenho que continuar a dar meus esforços para a coletividade. E nesse sentido, eu quero chamar então a atenção com uma frase popular também. Foi de uma senhora analfabeta até os 50-60 anos, prostituta no nordeste, e que quando perde a sua beleza, ela se alfabetiza e escreve uma poesia chamada “Eu Sou”. Começa com esta frase: “Sou um pra trás que não tem frente. E sou o veloz da carreira que não houve”. Eu achei estas duas frases absolutas do idioma português. Descreve toda uma vida de progresso que ela poderia ter e que não foi. E eu queria dizer então o seguinte: eu me considero um pra trás, com 86 anos, mas que ainda quero ter um pra frente e o terei.

E termino com a frase final desta poesia, desta Francisquinha, que era o nome dela: “mas eu sou a força maior do pensamento”. É o que todos nós somos, força maior do pensamento que evidentemente haverá de continuar, por quanto tempo eu não sei, mas que haverá de ser o bastante para mim.

Muito obrigado.

 

 

14 de Abril de 2015

 

E. A. Carlini

 


Programa Atitude: uma outra possibilidade de cuidado

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