Nós do Blog Intercambiantes
SP prestamos nossa homenagem ao prof. Carlini trazendo a vocês a fala do amigo,
professor e sempre mestre – “um pra trás sempre a frente”.
Saudade professor!
Prof. E. A. Carlini
Discurso da
Cerimônia de entrega
do
título de Professor Emérito, UNIFESP
Obrigado. Quebrando a etiqueta e protocolos,
por saudar à Soraya, reitora da UNIFESP. Cara Soraya, com quem trabalhei como
companheiros de diretoria da nossa ADUNIFESP, “batalha” em prol de tempos de
dignidade e liberdade, entendendo ser da EPM o papel de lutar contra a
ditadura.
E você, diretor da Escola Paulista de
Medicina, Antonio Carlos Lopes. Uma pessoa que ama essa nossa Escola como
poucas vezes vi na minha vida. E dele me lembro inclusive que uma vez se
referiu como “nossa escolinha”, o termo mais gentil, mais amado, que usamos
para nossa EPM, por amor. Inclusive até para responder aos comentários que
recebíamos no passado de outra Faculdade de Medicina, mais importante, e que
nós respondíamos, como “escolinha” de medicina, para a “divina USP”: “somos
humanos e queremos fazer com que nossa EPM cada vez caminhe mais e mais para o
alto”.
E à Congregação, através da Prof.ª Ligia,
também quero me dirigir. Eu sentei nessa Congregação, nesse mesmo anfiteatro,
talvez por vinte ou mais anos, e acompanhei debates incríveis a respeito da
importância da vida, da aceitação da morte, da importância do país ser livre,
debates memoráveis a respeito de “queremos de volta a eleição”.
Entre esses muitos colegas que por aqui
passaram, quero lembrar dois pelo dinamismo com que sempre defenderam os
interesses da nossa Escola, da nossa Universidade. Eu quero me referir ao José
Ribeiro do Valle e ao Rubens Belfort Junior. Esses dois, meus amigos, como
todos os demais muito lutaram e não estão presentes por estar um para sempre
fora de nosso alcance e outro em viagem para o interior.
Mas eu gostaria de dizer um ditado muito
típico do Brasil: “santo de casa não faz milagre”. Eu me considero na realidade
uma pessoa que é fruto desta casa e não
por mérito próprio apenas. Mas na realidade, eu trabalhei durante muito tempo
no departamento que eu fundei, passei para outro departamento que em três anos
aprovou que eu fosse um candidato a Professor Emérito. Mas o título que agora
recebo não é apenas meu. Eu queria deixar claro que considero isso em memória
de muitos que já se foram e colegas/alunos que muito me entusiasmaram. Os
alunos frequentemente pediam minha opinião, pediam aula que eu pudesse dar à
noite, etc. Então o mérito não é pessoal, é um mérito coletivo e que agradeço a
todos por este aspecto.
Eu queria lembrar rapidamente também a
respeito daqueles que marcaram minha existência durante esse tempo todo, estou
com 85 para 86 anos de vida. Começo por José Ribeiro do Valle, meu professor de
farmacologia e quem me incentivou, quem me encaminhou para a carreira
científica. Com a sua “mineirice” e sua imensa sabedoria, eu fui educado com
frases de grande teor filosófico, mas também de grande teor nacional, sabedoria
interiorana: “Carlini, bezerro manso, mama em qualquer vaca”. Ele me
aconselhava que eu nunca deveria partir para a ignorância, partir para
argumentação, que eu deveria simplesmente dialogar. Outra frase que sempre fez
questão de me dizer, e que pra nós é fundamental: “confie apenas na forte força
do seu fraco braço”. Ele dizia isso com muita sabedoria porque sabia que os
recursos que nós dispomos e a força que tem a ciência no Brasil são muito
pequenos, pra não dizer são praticamente inexistentes; e se nós não confiarmos
em nós mesmos, se nosso país não confiar em si próprio, nós nunca sairíamos de
um país em desenvolvimento, pois ainda somos país subdesenvolvido mesmo,
mudamos apenas o nome, mas continuamos a mesma coisa.
Solange
Nappo, há trinta anos que me atura, colega, professora adjunta aqui, esposa com
quem passei a discutir de uma maneira muito profunda, não mais só aqui, agora
os embates em casa também sobre a problemática do uso de drogas no país, a ela
muito eu devo também.
E
gostaria de dedicar algumas palavras ao João Pequeno.
João
Pequeno foi um aluno meu no curso de alfabetização noturna, que dei na Igreja
de Nossa Senhora de Guadalupe, aqui em Campo Belo, para operários da construção
civil e empregadas domésticas, analfabetos na fase adulta da vida. Foi talvez a
mais importante experiência que eu tive sobre sociologia, sobre sociedade,
sobretudo a necessidade de estarmos abertos à mais da metade da população
brasileira.
João
Pequeno era preto, pequeno, como o próprio nome indica, o maior acanhamento que
já vi na minha vida; não falava, não levantava a voz e não conseguia aprender
coisa nenhuma. Eu cheguei a ir conversar com o padre da igreja: “padre, acho
que é uma desistência que eu faço, eu não gostaria”. Ele disse: “tente um pouco
mais, Carlini”. O ensino que nós fazíamos era pelo método Paulo Freire, e a
palavra-chave para que todos aprendessem português era a palavra panela,
escolhida pelas próprias empregadas domésticas que vinham à noite estudar
conosco. Então a palavra panela foi divida em “pa” e nós procurávamos que eles
escolhessem, os alunos todos, outras palavras que iniciassem com “pa”. O João
Pequeno não passou nessa fase.
Aí
nós passamos para a segunda: “pe”. Também foi uma dificuldade, ele suava e
todos nós ficamos muito emocionados porque ele não aprendia. Até que um dia ele
fez um esforço supremo e saiu “Pelé”. Foi a primeira palavra que ele falou e
foi primeira vez que vi um ser humano chorar assim, como eu chorei e todos nós
choramos. E a partir deste momento, se alguma vez eu presenciei um milagre na
minha vida, esse milagre foi a mudança que João Pequeno passou a ter. Ele passa
a partir daí a ser um aluno normal, acompanha a palavra dos outros, tem sua
própria palavra, tem seu próprio avanço também. Foi quando eu aprendi então a
grande lição: metade da nossa população é constituída em graus menores de Joãos
Pequenos, que não são capazes de imaginar a própria potência e força que tem,
porque foram induzidos a acreditar que são arraia menor. A começar pelo padre
João Antonio Vieira, famoso pregador do passado que ensinava que o negro ou
escravo tinha que ser mesmo sofredor porque deles seria o reino dos céus no
futuro. Então na realidade, eu achei muito importante a missão que tive e que
procuro transmitir atualmente a meus alunos, meus colegas e aos meus seis
filhos, cinco filhas e um filho: somos muito da classe social dominante e
gostaria que nós entendêssemos que a classe social nossa deveria ser diferente.
Finalmente,
para terminar, eu considero que Professor Emérito não é um título de
aposentadoria, não. A aposentadoria eu já consegui antes, continuo e quero
continuar a trabalhar. E nesse sentido, minhas palavras finais vão pra isto. Eu
considero que a exemplo do João Pequeno e outros exemplos, a nossa missão, a
minha missão não está ainda terminada. Eu tenho que continuar a dar meus
esforços para a coletividade. E nesse sentido, eu quero chamar então a atenção
com uma frase popular também. Foi de uma senhora analfabeta até os 50-60 anos,
prostituta no nordeste, e que quando perde a sua beleza, ela se alfabetiza e
escreve uma poesia chamada “Eu Sou”. Começa com esta frase: “Sou um pra trás
que não tem frente. E sou o veloz da carreira que não houve”. Eu achei estas
duas frases absolutas do idioma português. Descreve toda uma vida de progresso
que ela poderia ter e que não foi. E eu queria dizer então o seguinte: eu me
considero um pra trás, com 86 anos, mas que ainda quero ter um pra frente e o
terei.
E
termino com a frase final desta poesia, desta Francisquinha, que era o nome
dela: “mas eu sou a força maior do pensamento”. É o que todos nós somos, força
maior do pensamento que evidentemente haverá de continuar, por quanto tempo eu
não sei, mas que haverá de ser o bastante para mim.
Muito
obrigado.
14 de Abril de 2015
E.
A. Carlini